Na sua palestra mostrou-nos a lista das dez línguas mais poderosas (ou potentes) no mundo. E, como vimos, o Português, segundo um estudo realizado pela EU, também faz parte. Quais são os critérios que levaram a incluir o português neste grupo de línguas?
Essa nomeação obedece, com toda a certeza, a rigorosos parâmetros de avaliação pela UE. Mas estou em crer que se deve exatamente ao poder que a língua portuguesa tem vindo a ganhar nas áreas de comércio e negócios (e isso, uma vez mais, também se fica a dever à grande aposta que a China se encontra a fazer na nossa língua). Por outro lado, é uma das línguas que mais tem visto crescer o seu número de falantes e o seu potencial económico como língua de intercâmbios não sós comerciais, mas também culturais.
O português é a língua oficial de Macau. Porque continua língua oficial se foi entregue à China em 1999/2000.
Como referi anteriormente, as relações entre Portugueses e Chineses sempre foi pacífica e, aquando da entrega do território novamente à administração Chinesa ficou, desde logo acordado que a língua portuguesa se iria manter, a par do chinês, como língua oficial. E acredito que essa é, na verdade, uma das riquezas únicas de Macau. Ter duas línguas oficiais, e não temos língua sem cultura e vice-versa, que representam culturas tão distintas e diversas, mas que co-existem numa perfeita harmonia. Acredito que tanto a China como Portugal se deveriam orgulhar muito do exemplo de plurilinguismo e multiculturalidade pacífica que têm para mostrar ao Mundo, Macau. O Português permanece como língua oficial tal como muitas das leis da base jurídica de Macau. Daí que, como referi há pouco, exista também na Universidade de Macau o curso de Direito bilingue, Chinês-Português. Macau obedece ao princípio um País dois sistemas. O País é a China, claro, e a Região administrativa Especial de Macau, tal como a de Hong Kong, têm a particularidade de ter uma legislação que ainda assenta, em algumas coisas, na lei básica Portuguesa.
Ao procurar informações sobre Macau, descobrimos que, apesar de ter sido entregue à China, Macau segue o mesmo sistema legislativo e jurídico que Portugal. Isso significa que os macaenses têm plena liberdade em todos os aspetos ligados à vida? P. ex. têm acesso à Internet e às redes sociais, gozam de liberdade de palavra, etc.?
Não sei se é por ainda se seguirem muitos dos padrões e princípios jurídico- administrativos de Portugal ou não, contudo é verdade que Macau se pauta por ser uma Região muito pacífica e segura para se viver ou visitar. Não temos qualquer problema no acesso diário e constante à informação que nos chega de todo o Mundo pelas mais variadas fontes de comunicação sejam elas via internet, jornais, televisão ou rádio. Curiosamente, em Macau temos rádio, televisão e jornais em língua Portuguesa. Em Macau há uma constante entrada e saída de milhões de pessoas e uma região cosmopolita como o é não poderia ter uma outra forma de vida, não conseguiria estar fechada em si mesma, uma vez que se pauta pela sua abertura ao Mundo: pelo turismo, casinos, história e cultura.
Macau, poderia ser caracterizado, hoje, como uma Las Vegas, com 41-42 casinos abertos 24 horas durante 7 dias por semana. Como este aspeto influencia a vida quotidiana dos macaenses? O que é que os Casinos trazem de bom aos habitantes da cidade ou da região autónoma?
Acredito que em Macau não há como separar os casinos do dia a dia dos habitantes, eles fazem parte da paisagem, da luz, do trânsito e do barulho característico da cidade. São, na verdade, os casinos que ditam o ritmo da região e dos seus residentes. Os casinos (o jogo) são a maior fonte de rendimento do território e, na verdade, a grande atração turística não só pelo jogo em si mas também pela grandiosidade e opulência dos edifícios. Também são estes mesmos casinos que dão emprego a muitos dos residentes de Macau, eles fazem parte daquilo que é ser verdadeiramente residente de Macau, não há como «escapar» a eles! Pelo menos é assim que o sinto, eu que ao longo de todos estes anos nunca joguei. Mesmo que não os frequentemos acabamos por não ter como os evitar uma vez que os fins de semana e épocas festivas em Macau acabam por ser ainda mais caóticos do que um qualquer dia da semana. É nessas épocas que, regra geral, o residente se afasta como que para dar espaço ao turista. Na verdade, o residente «foge» na tentativa de poder encontrar sossego longe de casa! Porque o turista, que vem para apreciar a mistura rica e única da cultura, arquitetura e culinária do Oriente e do Ocidente, acaba por tornar quase impossível a saída do residente à rua sem que este seja atropelado e arrastado por uma multidão deslumbrada e eufórica com as particularidades de Macau.
A Professora teve, na nossa universidade, possibilidade de conhecer o nível de ensino de Português. Poderia caracterizar, brevemente, o nível dos nossos alunos de licenciatura e de mestrado?
Posso dizer que fui positivamente surpreendida. Desde já dou os sinceros parabéns às professoras do Departamento de Português pelo trabalho extraordinário que fazem. Posso dizer que estava algo apreensiva pois uma das palestras que me foi sugerida teria como público alunos do primeiro ano, o que equivalia a dizer que os alunos teriam pouco mais de dois meses de aulas, se tanto. Teria pois que preparar uma sessão em inglês para que nos pudéssemos comunicar contudo, sob instrução da Professora Iva, a aula deveria ser conduzida em Língua Portuguesa. Foi uma agradável surpresa perceber que aqueles alunos ávidos por saber mais sobre mim, Macau e a língua portuguesa conseguiam entender grande parte da informação que tinha preparada (totalmente em português) para lhes transmitir. Os alunos do segundo ano demonstraram também um nível muito bom de proficiência e de compreensão. Quanto aos alunos de pós-graduação, que tive o gosto de conhecer, deixaram-me uma impressão muito positiva de jovens bastante dedicados, trabalhadores e, desde logo, vencedores. Uma fluência perfeita em português que os faria e fará singrar em qualquer país de língua portuguesa em termos profissionais e pessoais. Mostraram-se perfeitamente à vontade para comunicar em contextos mais formais ou tão informais como uma mesa de café, como pude testemunhar. Acredito que estes bons resultados se devam aos esforços conjuntos de docentes e de jovens que sabem o que querem e se dedicam a alcançar os seus principais objectivos. Completamente encantada com o nível de conhecimento apresentado por estes alunos e pelo interesse com que aprendem Português.
Professora Ana, tem algum recado para deixar aos nossos alunos de Português?
Espero que mantenham a alegria, que vi e que pude sentir na aprendizagem do Português, que se mantenham fascinados pela língua, cultura, história e tradições que caracterizam os Portugueses. Que os obstáculos que forem encontrando ao longo da aprendizagem, e que são próprios de quem aprende uma língua nova, não os desmotivem, acredito que será ainda esta a língua que lhes poderá oferecer um futuro promissor e auspicioso.
E para finalizar, gostaria de lhe agradecer, sinceramente, a sua vinda, as suas palestras, que a muitos abriram os olhos, a sua estadia e desejamos-lhe muito sucesso, paz e satisfação na sua carreira académica durante os próximos anos. Feliz viagem ade regresso Macau. Até à próxima!
Eu é que agradeço o simpático convite que me foi endereçado. Foi com enorme prazer que aqui estive que tentei partilhar um bocadinho tanto do meu conhecimento como das minhas experiências e só espero que, sinceramente tenham gostado, eu tenha conseguido motivar mais ainda os alunos maravilhosos que vocês têm no vosso Departamento. O meu muito obrigada a todos os alunos que assistiram de forma tão atenta e simpática às minhas palestras, adorei conhecer-vos. Tenho também que agradecer à Professora Iva por toda a atenção e cuidado que teve comigo, à Professora Fátima pela simpatia, enaltecendo o trabalho que ambas realizam no Departamento, pela motivação e difusão da língua Portuguesa, espero poder um dia recebê-las também na Universidade de Macau. A troca de experiências e saberes só nos pode tornar melhores nesta missão de formar jovens para um futuro que passa pela língua portuguesa. Um agradecimento muito especial ao Diretor da Faculdade de Filologia que, ainda que com a uma agenda cheia de muitos afazeres, se disponibilizou e concedeu algum do seu tempo para uma franca e sincera conversa sobre planos futuros de cooperação entre as nossas duas Instituições. O meu bem-haja a todos.
Autor da entrevista: Iva Svobodová